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Luan Moraes

Sobre o autor

Possui graduação em História pela Universidade Estadual de Alagoas, especialização em Gestão e Coordenação Pedagógica pela Faculdade São Tomás de Aquino e mestrado em História Social pela Universidade Federal de Alagoas.
Postada em 31/05/2026 20:29 | Atualizada em 31/05/2026 20:46

A inscrição é automática, o desespero também

O MEC garantiua inscrição dos alunos das Escolas Públicas na prova do Enem, mas esqueceu de avisar que eles não irão nem amarrados
A folha de redação em branco - Foto: Professor Luan Moraes

Um clique. E pronto.

O Estado, em sua infinita sabedoria algorítmica, matriculou o garoto no Enem. O incentivo do Pé-de-Meia está garantido. Nunca a burocracia foi tão eficiente em empurrar a juventude para o futuro. O problema é que o futuro, senhoras e senhores, tem trinta linhas, exige tinta preta e vontade.

Na sala de aula, quando distribuo as folhas pautadas, a mágica de Brasília desaparece. Ali, entre a classe de fórmica arranhada e o ar-condicionado (quando tem) pingando, não há clique que salve. A folha em branco é o nosso estado de natureza hobbesiano: assustadora, selvagem e imune a atalhos.

O aluno olha para a folha. Olha para mim. Ele parece procurar na borda do papel um botão de "aceitar os termos e condições" que preencha a tese e os argumentos por gravidade.

— Professor, como eu começo? — ele pergunta, girando a caneta como se tentasse dar a partida em um motor afogado.

Dá vontade de citar Sartre e dizer que a angústia dele é apenas a condenação à própria liberdade naquelas trinta linhas. Mas a pedagogia real, aquela que bate ponto e não vende curso milagroso na internet, não permite floreios. A verdade sociológica é mais crua: terceirizamos o pensamento para as telas e nos acostumamos a depender da inteligência artificial.

Automatizar a inscrição é fácil. O difícil é o processo artesanal, quase doloroso, de transformar ideias soltas em sintaxe. Exige tirar os olhos do feed e encarar a própria mente — um terreno que, ultimamente, anda com a grama meio alta.

Ele suspira, destampa a caneta e arrisca a primeira palavra. O sistema fez a matrícula, mas quem sangra na redação é ele.

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