04/06/2026 21:13:25
Luan Moraes
Os celulares foram proibidos, mas a falta de caráter não
A lei baniu as telas, mas o pátio escolar virou um laboratório clandestino

Foi um sobressalto. Na primeira semana do ano letivo sob a nova lei, o pátio da escola parecia um cenário de época. O smartphone, por decreto de Brasília, havia sumido. O silêncio digital deu lugar a um caos sonoro e o dominó esquecido no fundo da cantina voltou a ver a luz do sol.

Mas a ilusão do legislador acaba exatamente onde começa o ponto cego do inspetor de alunos.

Se o Estado acha que um pedaço de papel assinado apaga o vício cognitivo de uma geração, faltou ler Michel Foucault. O panóptico escolar tem suas falhas, e o adolescente, essa criatura forjada na adaptação, não abandonou a tela; apenas a empurrou para a clandestinidade. O celular não sumiu do recreio, ele apenas desceu para o submundo.

Hoje, o banheiro das cabines fechadas virou uma verdadeira lan house rotativa. Em pleno verão, alunos andam com casacos grossos fechados até o pescoço, escondendo um brilho azulado denunciador na altura do estômago. Formou-se uma rede de coesão social que deixaria Durkheim orgulhoso: há um complexo esquema tático de sentinelas no corredor, prontos para tossir duas vezes caso a coordenação se aproxime. O aluno que antes não falava com o colega da frente, agora articula uma fuga de Alcatraz em equipe apenas para rolar o feed por trinta segundos.

A pedagogia real não acontece na assepsia dos Diários Oficiais. Ela é feita de transgressão miúda. Tiraram o Wi-Fi visível e, em troca, ganhamos o sindicato do 5G escondido na manga do moletom. O adolescente moderno descobriu que o colega existe no mundo tridimensional, sim — principalmente se esse colega servir de escudo humano enquanto ele digita escondido.

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