
A educação brasileira finalmente abraçou o futuro.
Falaram-me de “copilotos inteligentes” que personalizam trajetórias de aprendizagem e dashboards que mapeiam a sinapse de cada aluno. A teoria é polida, asséptica e cheira a café de startup.
O problema é quando o copiloto digital da sala de aula tenta decolar e bate de frente com o ar-condicionado que ronca como uma turbina com asma.
Peguei um pincel marcador que estava quase seco. O tablet na minha mesa, uma janela para a onisciência algorítmica, piscou uma notificação: "Alerta de Engajamento: Cláudio apresenta desvio na rota de atenção". Marx, em sua análise sobre o fetichismo da mercadoria, daria uma risada cansada. Achamos que a magia está na ferramenta, no gadget brilhante que promete resolver o mistério do saber, enquanto ignoramos que a pedagogia real é artesanal, suada e, frequentemente, feita no improviso.
O algoritmo sabe que o Cláudio não está engajado. Eu também sei. O que o algoritmo não sabe — e o dashboard não mostra — é que o Cláudio não jantou direito ontem ou que o equipamento barulhento está impedindo-o de ouvir metade da aula sobre o Iluminismo. A tecnologia oferece uma "trilha personalizada", mas o chão da escola oferece desigualdade padronizada.
O Cláudio levantou a mão. “Professor, a IA disse que o Iluminismo foi o ‘Século das Luzes’. Mas por que a lâmpada da sala queimou de novo?” Sorri. O copiloto algorítmico pode muito, mas a realidade da sala de aula ainda depende de eletricista.

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